Vou atropelar os shows anteriores que ainda não postei, pra comentar esse de ontem. Tentarei atualizar tudo até o final dessa semana! Paciência comigo, please!!! ![]()

Ontem fui assistir o maestro Michel Legrand, que tocou com a Camerata SESC, na Torre de TV. O evento faz parte das comemorações do ano da França no Brasil. Foi ele quem criou a trilha de “Les miserables”, que é simplesmente linda, assim como lindo é o musical que, claro, eu adoro! Além dessa, criou muitas outras como Lola, Prêt-à-porter, Duas garotas, Os guarda-chuvas do amor e Verão de 42, Yentl…
O espetáculo foi fantástico, agradabilíssimo e o maestro esbanjou simpatia, sorrindo, cantando, tocando e conversando bastante com o público. Deu uma sutil “puxada de orelha” em um casal que chegou atrasado e passou pela frente do palco. Só pra esclarecer, na frente do palco tinha uma pequena área cercada, com cadeiras para convidados VIP. Enquanto o casal retardatário passava, ele disse com muita simpatia “vocês chegaram atrasados, mas estou feliz que pelo menos vocês vieram!”. Para bons entendedores, não se tratou apenas de uma piada…
A verdade é que o brasileiro não está muito acostumado com esses concertos de alto nível ao ar livre. Infelizmente, não temos cultura… isso é triste, mas acredito que a única forma de ir mudando essa realidade é oferecendo cada vez mais shows de qualidade. A música voltando pras salas de aula também é outro ponto que contribui pra criação da cultura na nossa sociedade. Alguém na platéia deve ter se confundido, achando que estava num show de rock, e deu uns gritinhos (uhuu!) no meio da execução, numa demonstração pura de falta de cultura. Certamente não teve ninguém pra explicar pra essa criatura que não deve se comportar dessa forma… De repente fez nas “melhores das intenções”… As pessoas não sabem aplaudir! Não sabem quando… Isso é triste e mais uma vez: é falta de cultura. Aplaudem antes da música terminar, no meio da música… E ainda acham que isso é ser caloroso…
Na minha opinião, são dois aspectos: a falta de educação e a falta de cultura.
A falta de cultura seria nos casos como esse, de não saber onde aplaudir, os gritinhos (uhuu!) fora de hora, o chegar atrasado…
A falta de educação é, por exemplo, um carinha da produção se debruçar no alambrado e ficar batendo papo com o amigo em alto e bom tom durante o espetáculo, atrapalhando os que estão ao redor… a falta de educação é um grupo de senhoras na faixa dos 65/70 anos, batendo papo aos gritos, igualmente atrapalhando os que estavam se deliciando com a música…
Pôxa, o carinha da produção poderia ter cumprimentado o amigo e deixado pra bater papo depois que terminasse, não? E as senhoras? Por que não ficaram em casa ou foram pra uma casa de chá, já que era pra contar “causos”?
Já tem um tempo que perdi algumas papas na língua e procuro me expressar pra essas pessoas, da forma mais educada que consigo, mostrando que estão atrapalhando, já que são incapazes de perceber sozinhas. Acho que se ninguém falar nada, todo mundo continua achando que está tudo bem e que não é desrespeito conversar em pleno concerto de uma das lendas da música francesa, atrapalhando uma oportunidade ímpar pra maioria das pessoas de assistir um concerto dessa grandeza.
Outro ponto que estou com vontade de falar é sobre o “Festa da Música”. Acho que já falei aqui sobre a “Fête de la musique”. Se não foi aqui, foi no blog de viagens. Segundo o presidente do SESC-DF, há uma parceria entre a Embaixada da França e o SESC-DF, para a promoção da “Festa da Música” desde 2004, mas com adaptações à arquitetura e urbanismo de Brasília. Ele fala de grandes shows promovidos ao ar livre e tal. GRANDES shows…
Em 2006 estive na França, pra formatura do meu irmão na Universidade de Sorbone. Para minha felicidade, cheguei no dia da “Fête de la musique”. “Fête de la musique” tem um duplo sentindo em francês, que tanto pode ser entendido como a “festa da música” como “faça a música”. É um evento incrível, bárbaro, inacreditável! A partir das 18h, o governo libera as catracas do metrô, permitindo acesso livre a todos os lugares para todas as pessoas. TODOS os músicos vão às ruas. Milhares! Todos levam seus instrumentos, os amplificadores e se instalam nas ruas. É isso mesmo! Nas ruas! Andando, pelas ruas, é música pra tudo quanto é lado. De uma esquina à outra, são pelo menos 3 bandas tocando. Não se trata de grandes shows, nem grandes cachês… É uma festa popular, onde todo mundo pode tocar. A cidade vira música. Imagina: Paris, a cidade luz também vira a cidade som! É muito nítida a alegria e a paz no astral das pessoas. A harmonia reina. Harmonia em todas as conotações! Fazem isso pra comemorar o início do verão, se não me engano, 21/junho.
Nota 10 pela iniciativa de importar pra Brasília um evento tão magnífico como esse! Logicamente temos uma arquitetura complexa pra várias coisas, mas eu acho que é possível tornar esse evento mais popular. Tudo bem que não temos esquinas e isso dificulta, pois as pessoas não circulam como lá. Na verdade em Brasília, as pessoas não circulam como em nenhum lugar do mundo… talvez como em Cutna Hora, na República Tcheca, onde tem uns blocos funcionais comunistas iguais aos do nosso Cruzeiro… Mas mesmo que seja feito na esplanada, na Torre de TV… poderiam disponibilizar pontos pro artista que quiser se apresentar, talvez colocar outras estruturas, atrações, mas não se limitar apenas a grandes shows, grandes nomes, grandes cachês. Fico imaginando se não funcionaria aquela praça enorme, do memorial JK até a rodoviária ou quem sabe, até o Congresso, cheio de gente andando, tocando, curtindo num entardecer e noite livres. Claro que precisaria de infra-estrutura, segurança e tudo mais… mas seria lindo e agradabilíssimo!
Tomara que a nossa “Festa da música” se aproxime cada vez mais da “Fête de la Musique” e que possamos ter momentos tão agradáveis e intensos como foi ouvir Michel Legrand, acompanhado também da harpista Catherine Michel e da cantora brasileira Patty Ascher. Mas repito: pode ser muito, mas muito mais popular e com muitos e muitos artistas locais, nacionais e internacionais se apresentando! Mais arte! Mais cidadania! Eu quero!